sexta-feira, 25 de maio de 2007
Pequenas Distrações (Gregório Bacic) :
A antiga mureta subiu com a rapidez com que sobem os tijolos de um sepultura. As setas dos portões cresceram apontadas para o céu, e só não se perderam no espaço porque a laje do primeiro andar do sobrado as conteve... com determinação. Uma guarita se instalou na calçada entre as arvores moribundas na entrada dos automóveis, no chão cimentado que antes da reforma era um jardim ingênuo, de copos de leite e rosas vermelhas. As janelas dão contra a vontade para a rua, a rua... envergando grades de puro aço que entre as frestas mal permitiria a passagem de um gato esguio. A casa antigamente singela, só não se transformou num bunker total de segurança máxima, porque permanecia vulnerável as quedas dos aviões, do jeito que as coisas iam, aos bombardeios aéreos, que mais cedo ou mais tarde o crime lançara mão. O patrimônio da família - o medo - estava provisoriamente a salvo; medo de ladrões, dos seqüestradores, dos estupradores, medo dos ventos, das enchentes, dos miseráveis, dos poderosos, dos fiscais, medo do terror, dos traficantes, dos negros, dos nordestinos, medo dos maloqueiros da favela, dos vendedores, dos cobradores, dos pregadores fanáticos, dos moto-boys que fumam maconha, dos ônibus lotados que despencam pela rua, medo da liberdade, medo da morte, medo da vida, medo do outro. Apesar de já inexpugnável, a fortaleza crescia ainda mais - era preciso assegurar-se da confiabilidade dos guariteiros. Assim a família instituiu o uso domestico do crachá, todos os novos residentes: pai, mãe, avó, tio avo, filho, duas filhas, nora e genro, deveriam portá-lo no peito, cabendo ao guariteiro liberar a entrada somente aquele que cumprisse a norma. E nisso as mulheres da casa questionaram a real eficácia do método, e protestaram contra o anuncio de que haveria crachás para os visitantes. O que condenaria o fim ao gosto da filha mais nova de 15 anos vista em casa como perigosamente distraída à receber amigas da escola. Só assim pudera provar se os guariteiros eram cumpridores e responsáveis de suas tarefas - Sem crachá -ninguém entra! Nem o dono, por mais inconfundível que seja aos olhos de seus servidores. Decidiu então pela obrigatoriedade dos guariteiros preencherem relatórios diários, enumerando horários de saída, entrada - e numa coluna de ocorrências extraordinárias, a passagem de terceiros, como carteiros, entregadores de jornais, mendigos, e outras pessoas vista com suspeita! Quem sabe não estaria ali esboçando-se um crime hediondo de seqüestro! O crescimento vertiginoso desses eventos nessas estatísticas determinavam a preferência da família por carros populares, os únicos capazes de não chamar a atenção dos criminosos a espreita. Mas como bastasse um único descuido para por tudo a perder, resolveu-se elidir os riscos providenciando a blindagem da frota familiar de Uno Mile! Na manhã seguinte decidiu-se instalar uma câmera de vídeo voltada para os portões, evoluiu-se para um sistema completo de capitação de imagens e de sons, ocultando-se micro câmeras, microfones, nos pontos do lar considerados estratégicos. Quando a filha mais nova vista em casa como perigosamente distraída, esqueceu-se da vigilância eletrônica, e masturbando-se, foi surpreendida pela câmera, instalada na dispensa. Por não saber como abordar o assunto, o pai fingiu não ter visto nada! - e transferiu o fardo para a mãe. As mulheres da casa foram informadas que sua intimidade estava suspensa, não se sendo aconselhável banhar-se ou trocar de roupa sem antes reservarem horários apropriados, de curta duração, em que as gravações dos banheiros seriam interrompidas para revisão técnica! A mãe contornou o mal estar argumentando se aquele era um preço alto a ser pago, seria ainda muito baixo, caso um dia as câmeras viessem a registrar cenas de estupros! Quanto a filha mais nova de 15 anos vista em casa como perigosamente distraída, foi severamente admoestada pela indecência que gerou a situação... mas ganhou da cunhada como consolo um filhote de Chiuaua, a quem deu o nome de Speed Gonzales. Tanto se apegou que passaram a ser tratados na casa como casal Gonzales! Agora o sistema de segurança era comprovadamente perfeito... mas e se algo falhasse...? Foi necessário reforçar a segurança com pit bulls amestrados, Goebbels e Goering. Com penúltima instancia, sim porque havia uma penúltima instancia, metralhadoras de cano curto, Calachini Cov, adquiridas à um contrabandista para armar a família contra terríveis conseqüências de um porre, um surto de loucura, ou até mesmo da traição do segurança nordestino de plantão! Ah... a traição do segurança nordestino de plantão! A lógica imperava mais uma vez, para enfrentar o pior inimigo, somente com a mais poderosa arma do pior inimigo. O recebimento de pizza, duas vezes por semana, mereceu o nome de Operação Marguerita 1, claro, depois se repetindo com 2, 3, 4, consistia na distribuição dos homens da família em pontos recônditos da casa, a espreita... com suas Calachini Covs em punhos, prontas para disparar. Escondendo-se o pai atrás da janela do sótão com uma granada na mão onde poderia observá-lo em torno e contra atacar se necessário! Enquanto o mulheril se postava em alerta na sala de jantar, empunhando talheres pontiagudos, especialmente afiados para a ocasião, com que deceparia os vilões acuados, os dedos, ou as mãos, ou que mais fosse preciso... O tio avô, recebia a entrega pelo vão da jaula de portões, não sem antes obrigar o entregador a provar um narco da pizza. Para certificar-se se não trazia suporíferos, barbitúricos, ou drogas de qualquer espécie, que pudessem arrefecer as trincheiras da família. Por que atravessar a vida arrastando esse fardo cruel, que nada contem a não ser o medo do que poderia um dia... talvez... quem sabe... por ventura vir acontecer. Porque não baixar a guarda e cuidar sem temor para que a vida pudesse correr solta lá fora... lá fora!!! A filha mais nova de 15 anos chegou a fazer essas perguntas em casa, foi vista é claro como perigosamente distraída, ingênua! Como seria possível fechar os olhos para a realidade? E a realidade é que já não se respeitam mais os valores que fizeram o mundo caminhar até aqui, sabe onde se escondem os bandidos? Nem mais se escondem. Hoje em dia são as pessoas direitas que se escondem. É preciso desconfiar de tudo e de todos, porque o tiro perdido, a bala certeira vem, não se sabe de onde, mas vem! Chamar a policia?! Nem pensar, seria o mesmo de abrir as portas de casa e expor as fragilidades do nosso reduto a pessoas suspeitas. Que depois certamente darão serviço a sabe-se lá quem... Por distração da filha mais nova de 15 anos vista em casa como perigosamente distraída, Speed Gonzales, o filhote de chiuaua escapou para o quintal... invadiu o cercado dos pit bulls, sendo estraçalhado por Goering, em atraso a filha mais nova de 15 anos vista em casa como perigosamente distraída, não chegou a tempo, em estado de choque, seus olhos puderam apenas acompanhar os minutos finais do minúsculo Speed Gonzales, que era devorado pelo mastodonte que relutava para não dividir o petisco com o enfurecido Goebbels. A família cachapou-se de tal forma com o estado da filha, que decretou por 3 dias o toque de recolher. Durante o qual se deveriam extrair lições da tragédia doméstica... estampado nos olhos esbugalhados e no silêncio estarrecido da bela menina recolhida à cama. O que seria deles, se a tragedia, viesse de fora?! Pelas mãos criminosas de estranhos? Já no segundo dia porem a consternação familiar se esvaziou, dando espaço a algo irrefreável, que tomava corpo, um discreto sentimento de orgulho para com a atuação de Goering, em sua primeira situação de risco enfrentada naquela casa, diante do cãozinho invasor, não negou fogo, mostrou a que veio!! No terceiro alvorecer, a filha mais nova, de 15 anos, vista em casa como perigosamente distraída, trajando um baby-doll cor-de-rosa transparente sobre o corpo nu e calçando pantufas, desceu plácida para o quintal, rumo ao cercado de cães. Esganiçando Goebbels e Goering lançaram-se em sobressalto contra a grade. Uma Calachini Cov ergueu-se serena e calculadamente nas mãos da menina que metralhou os cães! Com a mão esquerda brandindo a arma para o alto, o braço direito e os quadris da menina iniciaram um meneio lento, sensual, evoluindo para a fúria lasciva de uma dança inebriante, orgástica em torno dos cães mortos. Os olhos azuis extasiados descobriram a câmara posta no alto. Num golpe arrebatado, a filha mais nova, vista como perigosamente distraída, rasgou a seda cor-de-rosa frontal que a cobria e, orgulhosa e provocadora, ofereceu os peitos assoberbados para o equipamento, após o que, o metralhou. Até aquele momento, toda cena poderia ter sido assistida pelo circuito interno de TV. Mas por quem, se já não havia sobreviventes?
O QUARTO
O Quarto é como um labirinto, onde agora, a minha sanidade se perde enlouquecida; por entre seus vários caminhos desconhecidos, vacilando em suas armadilhas sorrateiras, no sufoco de seu ar pesado, eu me canso e paro.
O quarto é como o mundo, um sonho individual, uma condição coletiva, onde minha vida sempre finda; pouco a pouco se vai, como a água da chuva que escorre, rente ao meio fio de uma estrada qualquer, suja, simples, natural e passageira.
Mas todos neste mundo um dia hão de descobrir, talvez por ironia do destino ou pela intromissão de seu livre arbítrio, que o Quarto pode ser como uma torre insuperável onde o amor é aprisionado, o seu amor. Um véu negro implacável, que esconde atrás de seu aspecto intransponível o carrasco que tortura impiedosamente o amante não correspondido, que pelas paredes vazias, projeta os seus desejos apaixonados, desenhando com o sangue de sua aflição, o retrato do desespero. Desnorteado, no limite do suportável, embebedado pela paixão incondicional, passional, prestes ao suicídio que é retardado pela esperança e acovardado pela fé, de que talvez o seu amor, por piedade de sua dor, poupe-o deste mal que lhe tortura sem pudor.
Já para o casal que tanto se ama, o Quarto é aquele ninho de prazeres que lhes aquece e protege, na fúria da união de suas forças, gerando mais vida, gerando felicidade, mas ironicamente contradizendo uma condição. A cada beijo apaixonado, cada palavra ou demonstração de carinho, ordena o punhal da paixão a cravar-se violentamente no coração de um rejeitado, aquele que do casal perfeito que se forma, do par, é o terceiro, o amante não correspondido, seu vizinho infeliz.
O Terceiro. Para quem ama, o que é ser o terceiro?
Insuportável.
Será que neste Quarto, comum a todos os homens, uns tenham que choram para que outros sorriam?
Como uma balança que equilibra o amor, usando a dor como contrapeso?
O Q.G. do revolucionário, também é misterioso como o Quarto. O Q.G. daquele que conspira e luta, atentando contra as correntes que o limitam; estas que desrespeitam a sua dignidade violentando a sua liberdade sagrada, pois quem é cativo sempre quer liberdade. Liberdade da privação, liberdade do não, do amor, ou seria da vida?
O Quarto é um leito para os que têm sono, os muitos sonâmbulos, aqueles normais que se deixam levar pela tentação do ócio impregnado em suas paredes pardas; na escuridão tranqüila da noite, ou sob o céu laranja de um fim de tarde, eles se amontoam à visão tentadora da cama e assim padecem, sempre.
Para todos o Quarto serve, para todos existe um Quarto, escuro, frio, alegre ou apático. Cada cabeça é uma potência que o Quarto encerra como um tesouro reluzente, enterrado na carne, entretendo-se com outros quartos, conectados por corredores sem fim, à condição da humanidade.
A vida é como um Quarto, grande e aconchegante para uns, pequena e incomoda para outros, enfeitada com infinitas janelas bloqueadas por cortinas espessas; cortinas que escondem segredos, que ocultam o seu verdadeiro sentido, e que existem para serem abertas, escancaradas, ou freqüentemente visitadas com curiosidade juvenil.
Cada janela que se despe me conta uma verdade, me da uma pista, me educa e consola. E quantas vezes nelas me perco, como uma criança tentada a fugir de casa, tentada a desrespeitar uma ordem, uma lei social, para ofuscar-me com a luz que emana lá de fora, encantado pela visão da rua, refletida em um terceiro olho que agora se revela, avançando sem cessar como um corajoso desbravador.
Toda janela que se abre me mostra uma verdade desconhecida, me leva a outros Quartos, me traz de volta ao Quarto, a cada canto esquecido dele, à rua, ha rua.
Com tantas belezas ilustres, que infindas janelas me mostram, porque me deixaria levar por apenas uma delas? Ou por nenhuma? Talvez por comodidade ou por medo de sua vista?
Acovardaria-me como um preguiçoso, só porque suas cortinas são brancas como as paredes, e que isto dificulta muito a sua localização tornando-as quase que invisíveis? Tornaria-me assim, incerto e duvidoso, como o vôo cego de alguns homens?
Mas nem se quer em desespero, me deixo levar um vacilo, por descuido de minha fé, e me atiro de cabeça por um fio, em uma delas mergulhando aflito, achando que assim, obteria alívio às minhas penas, pelos prazeres à minha carne.
É preciso conhecer a todas as janelas, boas ou ruins, deliciando-se em seu Quarto com suas verdades, no gozo de provar o desconhecido. É preciso desvendar este mistério, pois o que é a vida se não um mistério? E para que serve um mistério se não para ser desvendado? Como o ar para ser respirado, como a carne para ser amada?
Coragem para os destemidos guerreiros, pois no Quarto tens mais poderes do que imaginas, pode-se chegar mais alto do que geralmente ousamos. E é este o sentimento que nos motiva, que nos guia, esta vontade intrínseca à nossa natureza de ir brincar lá fora.
E o que é se não o alívio, no fim do Quarto vazio, aquela porta grande e imponente, onde foi gravado um signo temido que uma mão juvenil talhou na madeira, para que todos vissem logo de frente, que por de trás desta porta se esconde, o paradigma da humanidade; negociando todo o alívio de seus pecados, pelo preço do fim de seus prazeres. Quem teria estômago para tal negociação?
Onde todo o seu passado é re-conectado divinamente, como se tudo não passasse de um grande círculo de metamorfoses contínuo e eterno, assim como a vontade sem amarras do nômade beduíno.
A esta porta alguns chamam de saída, outros de entrada, mas para ambos é ela quem efetiva o seu transcender e sua purificação. Pois só no final do quarto, morbidamente encontra-se, cerrada – não travada, mas cerrada – única; ela é a sua saída, o seu porvir, só ela poderá te levar adiante, à perpetuar sua missão maior.
Perpetuar o natural, esta é a morte do homem.
O Quarto é como a vida, um lugar de onde um dia todos passaremos. O homem é como uma criança que cresce lá dentro, encerrada em uma condição, tentada a descobrir como é lá fora.
A vida é como um Quarto.
Ovelha Negra.
O quarto é como o mundo, um sonho individual, uma condição coletiva, onde minha vida sempre finda; pouco a pouco se vai, como a água da chuva que escorre, rente ao meio fio de uma estrada qualquer, suja, simples, natural e passageira.
Mas todos neste mundo um dia hão de descobrir, talvez por ironia do destino ou pela intromissão de seu livre arbítrio, que o Quarto pode ser como uma torre insuperável onde o amor é aprisionado, o seu amor. Um véu negro implacável, que esconde atrás de seu aspecto intransponível o carrasco que tortura impiedosamente o amante não correspondido, que pelas paredes vazias, projeta os seus desejos apaixonados, desenhando com o sangue de sua aflição, o retrato do desespero. Desnorteado, no limite do suportável, embebedado pela paixão incondicional, passional, prestes ao suicídio que é retardado pela esperança e acovardado pela fé, de que talvez o seu amor, por piedade de sua dor, poupe-o deste mal que lhe tortura sem pudor.
Já para o casal que tanto se ama, o Quarto é aquele ninho de prazeres que lhes aquece e protege, na fúria da união de suas forças, gerando mais vida, gerando felicidade, mas ironicamente contradizendo uma condição. A cada beijo apaixonado, cada palavra ou demonstração de carinho, ordena o punhal da paixão a cravar-se violentamente no coração de um rejeitado, aquele que do casal perfeito que se forma, do par, é o terceiro, o amante não correspondido, seu vizinho infeliz.
O Terceiro. Para quem ama, o que é ser o terceiro?
Insuportável.
Será que neste Quarto, comum a todos os homens, uns tenham que choram para que outros sorriam?
Como uma balança que equilibra o amor, usando a dor como contrapeso?
O Q.G. do revolucionário, também é misterioso como o Quarto. O Q.G. daquele que conspira e luta, atentando contra as correntes que o limitam; estas que desrespeitam a sua dignidade violentando a sua liberdade sagrada, pois quem é cativo sempre quer liberdade. Liberdade da privação, liberdade do não, do amor, ou seria da vida?
O Quarto é um leito para os que têm sono, os muitos sonâmbulos, aqueles normais que se deixam levar pela tentação do ócio impregnado em suas paredes pardas; na escuridão tranqüila da noite, ou sob o céu laranja de um fim de tarde, eles se amontoam à visão tentadora da cama e assim padecem, sempre.
Para todos o Quarto serve, para todos existe um Quarto, escuro, frio, alegre ou apático. Cada cabeça é uma potência que o Quarto encerra como um tesouro reluzente, enterrado na carne, entretendo-se com outros quartos, conectados por corredores sem fim, à condição da humanidade.
A vida é como um Quarto, grande e aconchegante para uns, pequena e incomoda para outros, enfeitada com infinitas janelas bloqueadas por cortinas espessas; cortinas que escondem segredos, que ocultam o seu verdadeiro sentido, e que existem para serem abertas, escancaradas, ou freqüentemente visitadas com curiosidade juvenil.
Cada janela que se despe me conta uma verdade, me da uma pista, me educa e consola. E quantas vezes nelas me perco, como uma criança tentada a fugir de casa, tentada a desrespeitar uma ordem, uma lei social, para ofuscar-me com a luz que emana lá de fora, encantado pela visão da rua, refletida em um terceiro olho que agora se revela, avançando sem cessar como um corajoso desbravador.
Toda janela que se abre me mostra uma verdade desconhecida, me leva a outros Quartos, me traz de volta ao Quarto, a cada canto esquecido dele, à rua, ha rua.
Com tantas belezas ilustres, que infindas janelas me mostram, porque me deixaria levar por apenas uma delas? Ou por nenhuma? Talvez por comodidade ou por medo de sua vista?
Acovardaria-me como um preguiçoso, só porque suas cortinas são brancas como as paredes, e que isto dificulta muito a sua localização tornando-as quase que invisíveis? Tornaria-me assim, incerto e duvidoso, como o vôo cego de alguns homens?
Mas nem se quer em desespero, me deixo levar um vacilo, por descuido de minha fé, e me atiro de cabeça por um fio, em uma delas mergulhando aflito, achando que assim, obteria alívio às minhas penas, pelos prazeres à minha carne.
É preciso conhecer a todas as janelas, boas ou ruins, deliciando-se em seu Quarto com suas verdades, no gozo de provar o desconhecido. É preciso desvendar este mistério, pois o que é a vida se não um mistério? E para que serve um mistério se não para ser desvendado? Como o ar para ser respirado, como a carne para ser amada?
Coragem para os destemidos guerreiros, pois no Quarto tens mais poderes do que imaginas, pode-se chegar mais alto do que geralmente ousamos. E é este o sentimento que nos motiva, que nos guia, esta vontade intrínseca à nossa natureza de ir brincar lá fora.
E o que é se não o alívio, no fim do Quarto vazio, aquela porta grande e imponente, onde foi gravado um signo temido que uma mão juvenil talhou na madeira, para que todos vissem logo de frente, que por de trás desta porta se esconde, o paradigma da humanidade; negociando todo o alívio de seus pecados, pelo preço do fim de seus prazeres. Quem teria estômago para tal negociação?
Onde todo o seu passado é re-conectado divinamente, como se tudo não passasse de um grande círculo de metamorfoses contínuo e eterno, assim como a vontade sem amarras do nômade beduíno.
A esta porta alguns chamam de saída, outros de entrada, mas para ambos é ela quem efetiva o seu transcender e sua purificação. Pois só no final do quarto, morbidamente encontra-se, cerrada – não travada, mas cerrada – única; ela é a sua saída, o seu porvir, só ela poderá te levar adiante, à perpetuar sua missão maior.
Perpetuar o natural, esta é a morte do homem.
O Quarto é como a vida, um lugar de onde um dia todos passaremos. O homem é como uma criança que cresce lá dentro, encerrada em uma condição, tentada a descobrir como é lá fora.
A vida é como um Quarto.
Ovelha Negra.
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