O Quarto é como um labirinto, onde agora, a minha sanidade se perde enlouquecida; por entre seus vários caminhos desconhecidos, vacilando em suas armadilhas sorrateiras, no sufoco de seu ar pesado, eu me canso e paro.
O quarto é como o mundo, um sonho individual, uma condição coletiva, onde minha vida sempre finda; pouco a pouco se vai, como a água da chuva que escorre, rente ao meio fio de uma estrada qualquer, suja, simples, natural e passageira.
Mas todos neste mundo um dia hão de descobrir, talvez por ironia do destino ou pela intromissão de seu livre arbítrio, que o Quarto pode ser como uma torre insuperável onde o amor é aprisionado, o seu amor. Um véu negro implacável, que esconde atrás de seu aspecto intransponível o carrasco que tortura impiedosamente o amante não correspondido, que pelas paredes vazias, projeta os seus desejos apaixonados, desenhando com o sangue de sua aflição, o retrato do desespero. Desnorteado, no limite do suportável, embebedado pela paixão incondicional, passional, prestes ao suicídio que é retardado pela esperança e acovardado pela fé, de que talvez o seu amor, por piedade de sua dor, poupe-o deste mal que lhe tortura sem pudor.
Já para o casal que tanto se ama, o Quarto é aquele ninho de prazeres que lhes aquece e protege, na fúria da união de suas forças, gerando mais vida, gerando felicidade, mas ironicamente contradizendo uma condição. A cada beijo apaixonado, cada palavra ou demonstração de carinho, ordena o punhal da paixão a cravar-se violentamente no coração de um rejeitado, aquele que do casal perfeito que se forma, do par, é o terceiro, o amante não correspondido, seu vizinho infeliz.
O Terceiro. Para quem ama, o que é ser o terceiro?
Insuportável.
Será que neste Quarto, comum a todos os homens, uns tenham que choram para que outros sorriam?
Como uma balança que equilibra o amor, usando a dor como contrapeso?
O Q.G. do revolucionário, também é misterioso como o Quarto. O Q.G. daquele que conspira e luta, atentando contra as correntes que o limitam; estas que desrespeitam a sua dignidade violentando a sua liberdade sagrada, pois quem é cativo sempre quer liberdade. Liberdade da privação, liberdade do não, do amor, ou seria da vida?
O Quarto é um leito para os que têm sono, os muitos sonâmbulos, aqueles normais que se deixam levar pela tentação do ócio impregnado em suas paredes pardas; na escuridão tranqüila da noite, ou sob o céu laranja de um fim de tarde, eles se amontoam à visão tentadora da cama e assim padecem, sempre.
Para todos o Quarto serve, para todos existe um Quarto, escuro, frio, alegre ou apático. Cada cabeça é uma potência que o Quarto encerra como um tesouro reluzente, enterrado na carne, entretendo-se com outros quartos, conectados por corredores sem fim, à condição da humanidade.
A vida é como um Quarto, grande e aconchegante para uns, pequena e incomoda para outros, enfeitada com infinitas janelas bloqueadas por cortinas espessas; cortinas que escondem segredos, que ocultam o seu verdadeiro sentido, e que existem para serem abertas, escancaradas, ou freqüentemente visitadas com curiosidade juvenil.
Cada janela que se despe me conta uma verdade, me da uma pista, me educa e consola. E quantas vezes nelas me perco, como uma criança tentada a fugir de casa, tentada a desrespeitar uma ordem, uma lei social, para ofuscar-me com a luz que emana lá de fora, encantado pela visão da rua, refletida em um terceiro olho que agora se revela, avançando sem cessar como um corajoso desbravador.
Toda janela que se abre me mostra uma verdade desconhecida, me leva a outros Quartos, me traz de volta ao Quarto, a cada canto esquecido dele, à rua, ha rua.
Com tantas belezas ilustres, que infindas janelas me mostram, porque me deixaria levar por apenas uma delas? Ou por nenhuma? Talvez por comodidade ou por medo de sua vista?
Acovardaria-me como um preguiçoso, só porque suas cortinas são brancas como as paredes, e que isto dificulta muito a sua localização tornando-as quase que invisíveis? Tornaria-me assim, incerto e duvidoso, como o vôo cego de alguns homens?
Mas nem se quer em desespero, me deixo levar um vacilo, por descuido de minha fé, e me atiro de cabeça por um fio, em uma delas mergulhando aflito, achando que assim, obteria alívio às minhas penas, pelos prazeres à minha carne.
É preciso conhecer a todas as janelas, boas ou ruins, deliciando-se em seu Quarto com suas verdades, no gozo de provar o desconhecido. É preciso desvendar este mistério, pois o que é a vida se não um mistério? E para que serve um mistério se não para ser desvendado? Como o ar para ser respirado, como a carne para ser amada?
Coragem para os destemidos guerreiros, pois no Quarto tens mais poderes do que imaginas, pode-se chegar mais alto do que geralmente ousamos. E é este o sentimento que nos motiva, que nos guia, esta vontade intrínseca à nossa natureza de ir brincar lá fora.
E o que é se não o alívio, no fim do Quarto vazio, aquela porta grande e imponente, onde foi gravado um signo temido que uma mão juvenil talhou na madeira, para que todos vissem logo de frente, que por de trás desta porta se esconde, o paradigma da humanidade; negociando todo o alívio de seus pecados, pelo preço do fim de seus prazeres. Quem teria estômago para tal negociação?
Onde todo o seu passado é re-conectado divinamente, como se tudo não passasse de um grande círculo de metamorfoses contínuo e eterno, assim como a vontade sem amarras do nômade beduíno.
A esta porta alguns chamam de saída, outros de entrada, mas para ambos é ela quem efetiva o seu transcender e sua purificação. Pois só no final do quarto, morbidamente encontra-se, cerrada – não travada, mas cerrada – única; ela é a sua saída, o seu porvir, só ela poderá te levar adiante, à perpetuar sua missão maior.
Perpetuar o natural, esta é a morte do homem.
O Quarto é como a vida, um lugar de onde um dia todos passaremos. O homem é como uma criança que cresce lá dentro, encerrada em uma condição, tentada a descobrir como é lá fora.
A vida é como um Quarto.
Ovelha Negra.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
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